Censo 2010 aponta que 45,6 milhões de pessoas declararam-se com algum tipo de deficiência, mas nem 1% dos trabalhadores com vínculos empregatícios são deficientes. No Vale do Taquari, as empresas enfrentam a falta de candidatos e trabalham para fazer evoluir a questão cultural no sentido de mostrar que o deficiente não é uma pessoa diferente e precisa cultivar a sua cidadania através do exercício pleno de atividade produtiva.
A questão da inclusão de pessoas com deficiência (PCD’s) no mercado de trabalho é um desafio que pode ser visto pelas empresas como uma crise ou como uma oportunidade. No Vale do Taquari, empresários apontam que as maiores dificuldades estão ligadas à falta de preparação, dos próprios empreendedores e da sociedade, além do medo que os PCD’s têm de perder o Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social (BPC).
Em tempos de escassez de qualidade profissional, as empresas precisam rever o processo de inclusão desses trabalhadores para maximizar o aproveitamento da mão de obra disponível na região e, assim, exercer de forma plena a missão de responsabilidade social esperada pela comunidade. A implantação de programa de inclusão da PCD é um desafio que toda empresa, com mais de 100 colaboradores, experimenta atualmente.
De acordo com o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 45 milhões de pessoas declaram-se com algum tipo de deficiência no Brasil. No entanto, menos de 1% dos trabalhadores com vínculos empregatícios são portadores de tais necessidades.
Divergências
Segundo o coordenador de Recursos Humanos (RH) da Certel, Alexandre M. Schneider, existe um mito com relação à quantidade de PCD’s disponíveis e capacitados no Brasil. Para ele, as próprias instituições públicas divergem a esse respeito. “Quando se fala da necessidade de integrá-los, utilizam-se das estatísticas do censo do IBGE, que fala em milhões de PCD’s disponíveis. No entanto, essa estatística é ‘auto-declaratória’ ou seja, perguntada, a pessoa menciona se tem alguma deficiência.”
Schneider conta que o Ministério do Trabalho tem uma avaliação rígida, com base em critérios técnicos que mostram a incapacidade para o trabalho. “Muitas PCD’s, mesmo com laudo médico, são desqualificadas na avaliação do Ministério, por considerarem que para aquela função, em que está atualmente, sua incapacidade não é grave suficiente para causar perda na produtividade.
Preconceito
A psicóloga, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas e mestranda em Psicologia Social Liciane Diehl pondera que, quando as pessoas refletem sobre a inclusão social, deparam-se com uma série de preconceitos e dificuldades resultantes de uma trajetória histórica. Isso revela, segundo a psicóloga, que a pessoa portadora de deficiência sempre foi marginalizada e é sempre vista como “diferente”.
Segundo Liciane, “também há de se considerar que a concepção de trabalho como fonte de identidade e auto-realização humana ainda padece para se sustentar como algo possível e real. O trabalho pode e deve propiciar o desenvolvimento do sujeito, preencher a sua vida, ser fonte de saúde e condição de emancipação. Quebrar preconceitos, sensibilizar a sociedade e mudar essa cultura leva tempo. Mas iniciativas estão sendo tomadas e devem ser publicadas como tentativa de conscientizar toda a sociedade.” E completa, “a primeira e principal mudança começa dentro de nós. Quando nós mudamos, a sociedade muda, porque nós somos a sociedade, embora poucas vezes nos lembremos disso.”
O que diz a lei?
A Lei 8.213/1991 prevê que empresas com mais de 100 funcionários devem abrir, no mínimo, 2% de vagas a deficientes. O percentual aumenta conforme o tamanho do quadro de funcionários, alcançando 5% para companhias com mais de mil trabalhadores contratados. O número exato depende da quantidade total de funcionários.
“Sabemos que o cumprimento da lei 8213/91 é o grande desafio das empresas da região e que somente poderá ter êxito se, de fato, houver uma base de informações validada, estrutura e articulação sistematizada de todos os atores sociais para com a causa da inclusão das PCD’s no mercado de trabalho”, diz a responsável pela área de RH da Docile Alimentos, Silvana Scalia.
Apoio de todos
Para a coordenadora de RH da Vonpar Alimentos, Anete Diehl Martins, “a questão mais angustiante é querer cumprir a legislação e não conseguir. Muitas vezes, por não encontrar PCD’s interessadas, tanto nas vagas de trabalho, quanto nos cursos de aprendizagem que as empresas oferecem.” Segundo ela, isso é uma questão cultural, algo ainda recente para as pessoas, que por muito tempo ficaram à margem da sociedade.
Hoje as empresas oferecem programas de aprendizagem nos quais as PCD’s que participam recebem uma bolsa auxílio de meio salário mínimo. Para àquelas que recebem o BPC, no período de aprendizagem, acumulam os dois, ou seja, recebem a bolsa mais o BPC. Ao concluir o programa estarão aptos ao trabalho, podendo ser contratados pelas empresas. “É uma oportunidade diferenciada para as PCD’s se experimentarem no ambiente de trabalho, visto que esses programas mesclam teoria e prática”, comenta Anete.
“O apoio de todas as instituições e entidades que trabalham com PCD’s é imprescindível, no sentido de formar parcerias com as empresas para, juntas, desenvolver a consciência quanto aos benefícios da inclusão social para essas pessoas e para a sociedade como um todo”, aponta Anete.
Banco de dados
Já para a coordenadora de RH da empresa Girando Sol, Lisane Schmitz, um dos maiores problemas é a falta de um órgão responsável em estruturar um banco de dados para portadoras de necessidades especiais ou reabilitados do INSS. Esse órgão disponibilizaria informações essenciais às empresas para facilitar a inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho.
Em relação a este banco de dados, o presidente do INSS, Mauro Hauschild, em encontro com o Grupo de RH’s do Vale, na Acil, em 25 de junho, propôs, juntamente com a gerência regional do órgão, avaliar a possibilidade de criá-lo, com informações de aposentadas por invalidez na região do Vale do Taquari. Após nova avaliação, as pessoas aptas a reingressar no mercado seriam encaminhadas para programas de reabilitação profissional e posterior contratação pelas empresas.
Auto-estima maior
Outro desafio, segundo Lisane, é fazer com que a pessoa acredite que, ao deixar de receber o BPC, terá outras vantagens. “Através do trabalho, ela poderá construir uma vida mais independente, terá mais autonomia e poderá contribuir para o seu sustento. Com a inclusão social, será capaz de mostrar seu potencial e, consequentemente, sua auto-estima será maior”.
Sobre essa questão, a assistente de Desenvolvimento da empresa Benoit, Susi Eliane Dörr, diz que “as PCD’s alegam que, para adquirir o BPC, o processo é muito desgastante e demorado; sendo assim, preferem não se arriscar a perdê-lo”.
No encontro citado, Hauschild disse que isso será avaliado, visando o encaminhamento das PCD’s para cursos de aprendizagem e ingresso no mercado de trabalho.
Recepção de PCD’s
Um dos desafios das empresas é preparar os funcionários para lidar com as diferenças no ambiente de trabalho e as contratações de mais colegas com deficiências mostram as dificuldades que existem quando se fala em inclusão. No Centro Universitário Univates, existe uma comissão, nomeada pela reitoria, com o propósito de pensar a inclusão e propor ações, informa a psicóloga do RH da instituição, Cristine Heineck. Essa comissão é formada por diversos funcionários que se propõe a ajudar a pensar tais questões. A comissão é coordenada pelo RH, sendo seus integrantes representantes de diferentes áreas. Outras pessoas são envolvidas nas discussões de acordo com os temas tratados.
A Univates elaborou material para ser passado aos funcionários novos. Quem ajuda a transmitir a mensagem inicial é uma representante das PCD’s, uma colega que é cadeirante, conta Cristine. Além disso, estão sendo elaboradas oficinas que serão estendidas a todos os funcionários visando disseminar o assunto e trabalhar a questão das diferenças de maneira mais ampla.
A psicóloga enfatiza que é dada atenção especial a cada contratação de PCD. “São realizadas conversas com a coordenação e busca-se analisar bem as funções, como será a adaptação. Também é feito um acompanhamento diferenciado, que em alguns casos envolve até a família do funcionário”, complementa.
Infraestrutura e falta de preparação
Susi aponta que existem problemas relacionados com a infraestrutura da cidade. “É notável que em nossa cidade, por exemplo, não há transportes públicos adaptados para certos tipos de deficiência. E não falamos apenas do veículo em si, mas sim de profissionais que não estão preparados para lidar com essas pessoas que tem algum tipo de necessidade especial.”
Ela complementa analisando o despreparo das escolas na adaptação das PCD’s para o mercado. “Percebemos que as escolas não estão preparando esses alunos para o mercado de trabalho. As escolas não têm a estrutura necessária para a qualificação desses futuros profissionais, o que dificulta o ingresso dessas pessoas no mercado.”
Pelas dificuldades que a sociedade tem em lidar com os deficientes e a inclusão dos mesmos no mercado de trabalho, torna-se fundamental investir na sensibilização de gestores, empreendedores, lideranças políticas, institucionais e outras. Os empreendedores e gestores respondem pela abertura de vagas para essas pessoas e pelo gerenciamento das dificuldades que aparecem no dia-a-dia. Porém, apesar de convencidos dos benefícios e da importância da inserção de PCD’s no mercado, enfrentam a maior barreira na própria sociedade pelas lacunas legais e operacionais, omissões das entidades responsáveis e questões culturais envolvendo a participação ativa desses indivíduos.
Depoimento de uma PCD (Deficiência Física)
Meu nome é Sandreane Bohrer. Entrei na Univates em 2004, primeiramente como estudante de Direito, e no segundo semestre comecei a trabalhar na Biblioteca, onde estou até hoje. Após seis anos cursando a graduação, consigo conciliar a Biblioteca com o escritório de advocacia. Já estou na Univates há oito anos. É uma instituição que tem uma preocupação em aperfeiçoar todos seus funcionários e oferece uma infraestrutura com suporte necessário para que eu possa desenvolver o meu dia a dia.
A Univates vem trabalhando no sentido de inserir PCD’s em seu quadro funcional de forma digna, qualificando este profissional. O maior objetivo é o de mostrar que as pessoas são diferentes em si, que a diferença está em todos os lugares e hoje se faz extremamente necessário desenvolver tal pensamento e pô-lo em prática, para que a inclusão seja justa e eficiente.
Fonte: Assessoria de Imprensa
